ESCOLA, RELAÇÃO DE PODER E EXCLUSÃO: Notas introdutórias para uma reflexão sobre a educação no pensamento de Paulo Freire e Pierre Bourdieu
Sebastiana Inácio da Silva*
Naedja Sammirames da Silva*
RESUMO
O texto discute a problemática da escola e sua relação de poder, dominação e exclusão. A forma como sutilmente ela reproduz os valores da sociedade capitalista e opressora, além de transformar os estudantes em seres humanos desestimulados e sem esperança. Faz uma reflexão a respeito do pensamento de Freire e Bourdieu abordando os conceitos relacionados a escola e à educação.
PALAVRAS CHAVE
Escola – educação – exclusão – reprodução – capitalismo
1. A ESCOLA E A EXCLUSÃO:
Um processo contínuo
Falar sobre a escola e a exclusão, nos deixa um tanto indignados, visto que a escola, se propõe a ser um lugar de conscientização, crescimento, liberdade e esperança, não um ambiente de hipocrisia, dominação, exclusão e incerteza. Uma instituição que reza a cartilha do capitalismo e reproduz os seus valores em todas as instâncias.
O tema verdadeiramente nos remete a uma série de problemas que procuraremos distinguir ao longo desse trabalho. De início, apontaremos três problemas pertinentes a questão da escola:
• A escola reproduz os mecanismos de exclusão da sociedade.
• Os indivíduos marginalizados pelo sistema não tem perspectiva de mudança e a escola reforça a sua frustração.
• A escola limita os jovens das camadas pobres a se capacitarem para atenderem ao objetivo do capitalismo.
Esses três problemas muitas vezes são imperceptíveis aos nossos olhos visto que, são comuns à maior parte das pessoas. Nem sempre por serem menos esclarecidas intelectualmente mas, por estarem habituadas ao sistema excludente da nossa sociedade.
1. A ESCOLA REPRODUZINDO O MODELO QUE A SOCIEDADE IMPÕE
Observamos traços de poder, dominação e exclusão já no início da vida escolar, principalmente na escola pública. Mesmo o ensino público, se propondo a ser democrático, aí é que se afigura o cerne da discussão, a começar pelos conteúdos programáticos das primeiras lições do ensino infantil. São palavras que descrevem uma realidade totalmente aversa ao ambiente que as crianças vivenciam. Segundo FREIRE (1983, p. 104),
Lições que falam de Evas e de uvas a homens que as vezes conhecem poucas Evas e nunca comeram uvas. “Eva viu a uva”. Pensávamos numa alfabetização que fosse em si um ato de criação, capaz de desencadear outros atos criadores. Numa alfabetização em que o homem, porque não fosse seu paciente, seu objeto, desenvolvesse a impaciência, a vivacidade, característica dos estados de procura, de invenção e reinvindicação.
Ou seja, se o contexto político, social e cultural do estudante não é levado em consideração pela própria escola como podemos esperar uma transformação através do processo educacional?
Falamos apenas dos primeiros anos de estudo, do ensino infantil, imaginemos pois como isso se estende ao longo de todo o processo educacional. O estudande vai paulatinamente se sentindo deslocado dentro da instituição, pois os interesses do estado e do capitalismo é que exercem a soberania sobre o seu presente e seu futuro, minando qualquer esperança de alcançar uma vida diferente.
No que se refere aos jovens, o maior interesse dos órgãos da sociedade é que estudem e se capacitem para uma profissão o mais urgente possível, não importa se esse jovem desenvolveu uma consciência crítica ou se pretende seguir outra direção, ele tem que ser capacitado para alimentar o sistema que o aguarda. Principalmente quando se trata de jovens das classes menos favorecidas, que precisam trabalhar para seu próprio sustento, para esses, a escola serviu como um adestramento que preparou sua mente para o conformismo e a mediocridade.
A escola funciona muitas vezes como o aparelho que o estado utiliza para forjar suas ferramentas de lucro, mão de obra, patrimônio cultural e intelectual. De acordo com CARVALHO, (2006 apud BOURDIEU, 1998,p.39),
... a instituição escolar que, em outros tempos, acreditamos que poderia introduzir uma forma de meritocracia ao privilegiar aptidões individuais por oposição aos privilégios hereditários, tende a instaurar, através da relação encoberta entre aptidão escolar e a herança cultural, uma verdadeira nobreza de Estado, cuja autoridade e legitimidade são garantidas pelo título escolar.
Dessa forma, o Estado é o principal interessado nessa forma de alienação, visto que ele investe na educação que forja seus dominados mesmo que indiretamente. Claro que sua ação é sutil, se não fosse as pessoas teriam mais força de reação, mais elas nem percebem e agem como se fossem livres e autônomas. De acordo com Bourdieu “a escola reproduz os valores da sociedade e legitima as desigualdades sociais, para ele a escola fornecia a todos os indivíduos o ensino necessário tanto para a promoção da liberdade individual quanto para a sua ascenção social” (CARVALHO, 2006, p. 127).
2. CONSEQUÊNCIAS DA EXCLUSÃO
Como consequência dessa forma injusta e competitiva de formar sujeitos para agir na sociedade, temos os problemas que emergem ao longo desse processo. Um dos mais graves é a violência, a formação de gangues, que acaba transformando a sociedade num verdadeiro caos, e marginalizando ainda mais as comunidades carentes.
Um fato interessante é que a escola e a sociedade tem mecanismos de exclusão que ditam a profissão dos estudantes de acordo com a classe social a que pertencem, por exemplo: um filho de agricultor dificilmente chega a ser médico, juiz, ou seja, a escola seleciona por habilidades e os jovens das classes pobres, os filhos de empregadas domésticas ou moradores ribeirinhos dificilmente chegarão a um doutorado, no máximo chegam a uma graduação.
As elites dominantes tem estratégias de acomodar as pessoas e domesticá-las para serem manipuladas do jeito que atendem aos seus interesses, para: (FREIRE,1983, p. 17),
Do ponto de vista das elites, a questão se apresenta de modo claro: trata-se de acomodar as classes populares emergentes, domesticá-las em algum esquema de poder ao gôsto das classes dominantes. Se já não é possível aquela mesma docilidade tradicional, se já não é possível contar com sua ausência, torna-se indispensável manipulá-las de modo a que sirvam aos interesses dominantes e não passem dos limites.
Ou seja, ainda que as pessoas decidam se organizar e lutar pelos seus direitos, saindo da situação de dominação em que estão imersas, as elites do poder terão sempre mecanismos de cercear seus intentos.
Dessa forma, concluímos que a sociedade como um todo precisa buscar o conhecimento que seja interessante à sua realidade, não se conformando com os modelos prontos que são impostos pelos que detém o poder. Não podemos fazer generalizações vazias ou uma “caça às bruxas”, tudo o que a sociedade reproduz é fruto de uma tradição opressora que mesmo com o passar dos anos ainda sobrevivem os resquícios para nos perturbar.
Procuramos conhecer um pouco do pensamento de Freire e Bourdieu, mas concluímos que seria interessante um estudo mais aprofundado e substancioso, poderíamos utilizá-los para futuras investigações sobre o tema.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FREIRE,Paulo. Educação como prática da liberdade. In:. Educação como prática da liberdade. 14 ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1983. (p. 29-33).
FREIRE, Paulo. Educação e política. In:.Educação como prática da liberdade. 14 ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1983. (p. 01- 27).
FREIRE, Paulo. Educação e concientização. In:. Educação como prática da liberdade. 14 ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1983. (p. 101-123).
CARVALHO, Alonso Bezerra de. e LIMA da Silva, Wilton Carlos. (orgs). A sociologia de Pierre Bourdieu e sua análise sobre a escola. In:. Sociologia e Educação: leituras e interpretações. São Paulo: Avercamp, 2006. (p. 113-134).
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