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A Centralidade de Cristo na Epístola aos Filipenses


Autora: Sebastiana Inácio Lima[1]
Email: dianadavi123@gmail.com

RESUMO

            O presente texto é um estudo acerca da centralidade de Cristo na epístola do apóstolo Paulo aos Filipenses. O texto contém inicialmente um breve contexto histórico, que faz parte da introdução; na segunda parte trata-se sobre a análise textual da epístola. Para a execução desse comentário, tivemos o embasamento primário da Bíblia de Estudo de Jerusalém e secundário, alguns artigos de teólogos como Vincent Cheung, William Barclay, além de outras fontes. O objetivo desse estudo é compreender a epístola, o contexto histórico em que Filipos estava inserido e centralidade de Cristo Jesus nessa carta.

Palavras Chave: Centralidade. Cristo Jesus. Filipenses.

1.      Introdução e Breve Contexto Histórico

Falar acerca da centralidade de Cristo é sempre um assunto agradável, do ponto de vista cristão, nesse sentido, estaremos analisando a sua centralidade especificamente na Epístola de Paulo aos Filipenses. Cristo nessa epístola é o cerne de todos os assuntos, para confirmar essa assertiva iremos fazer um estudo dos aspectos que podem nos confirmar isso.
Filipos era uma cidade localizada na ”Via Egnatia, ligava as províncias orientais do Império Romano, foi a primeira grande cidade européia visitada por Paulo depois de seu retorno da Ásia pelo mar Egeu” [2], em resposta a visão do Macedônio (At 16. 11-40).
De acordo com Kaiser (2011, p. 318) “era situada na parte oriental da macedônia a 16 km da costa do mar Egeu, fundada por Felipe da Macedônia, pai de Alexandre Magno.” A fé cristã chegou a Filipos inicialmente por volta de fins do ano 50 d.C, depois da visão do apóstolo Paulo ao apelo do macedônio, vejamos:
Ora, durante a noite, sobreveio a Paulo uma visão. Um macedônio, de pé diante dele, fazia-lhe um pedido: “Vem para a Macedônia, e ajuda-nos!” Logo após a visão, procuramos partir para a Macedônia, persuadidos de que Deus nos chamava para anunciar-lhe a Boa Nova”. Atos 16.9,10.

 Conforme Kaiser[3], não havia sinagoga naquela cidade, mas, de acordo com Atos 16.13,16, havia um lugar de oração onde algumas mulheres se reuniam. Esse lugar era “junto à margem do rio” [4], diferentemente da centralidade das sinagogas às quais Paulo sempre que chegava a uma cidade procurava para anunciar o evangelho. Barclay[5] fala sobre isso:
Quando Paulo escolhia um lugar para a pregação do Evangelho o fazia sempre com o olho do estrategista. Não só escolhia um centro importante em si, mas também cuidava para que fosse um ponto chave para toda uma região. Advertiu-se com freqüência que muitos dos lugares escolhidos naquela época por Paulo para a pregação são ainda grandes nós de caminhos e pontos de junção ferroviária.

 Nessa epístola retrata que a primeira convertida foi uma prosélita[6] chamada Lidia, “vendedora de tecidos de púrpura, da cidade de Tiatira”. At. 16.14. Também há outra mulher filipense, uma jovem escrava, que chamava a atenção por possuir um espírito de adivinhação[7]e com isso incomodava, fatigava a Paulo e Silas, com sua fala delirante, então Paulo ordenou que o espírito mau saísse. Por causa desse episódio e do lucro que ela dava aos seus donos, os mesmos colocaram a cidade inteira contra eles e foram presos e espancados.
Na leitura dessa carta, observamos os vários motivos que moveram o apóstolo Paulo a escrevê-la: Agradecer a ajuda financeira que a igreja tinha enviado através de Epafrodito. 2.25; 4.14-18); Informar a gravidade do estado de saude de Epafrodito. (2. 29-30). Que agora já estava recuperado. (2.27); Informar sobre a situação em que o apóstolo se encontrava (1.12-18); Apelar para as duas mulheres (Síntique e Evódia) em conflito para que se reconciliem e permaneçam unidas (4.2-3); Recomendá-los a Timóteo, que se preparava para visitá-los (2.19-24). Em todos esses motivos elencados, o mais importante e mais central é Cristo Jesus. Jesus é o assunto, o cerne, a palavra chave. Kaiser diz que “não há dúvida de que Jesus Cristo dá o tom ao livro de Filipenses e está no centro de sua argumentação”.[8]
A epístola é direcionada a um publico, “Paulo e Timóteo, servos de Cristo Jesus, a todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos, com os seus epíscopos e diáconos”. Fp. 1.1. Sobre isso vejamos o que aborda Cheung:
Paulo dirige sua carta aos “santos... juntamente com os bispos e diáconos” ele faz especial menção aos bispos e diáconos, possivelmente porque eles tinham um papel proeminente em iniciar e coletar a ajuda financeira para Paulo. Os bispos e diáconos não formam um grupo fora dos outros crentes; antes, “os santos”, consistem do grupo inteiro, com todos os membros da igreja, e dentro desse grupo encontramos bispos e diáconos. Ou seja, Paulo está escrevendo, aos santos, “juntamente com” ou incluindo, os bispos e diáconos.[9]

Na citação acima podemos concluir que Paulo não está colocando os bispos e diáconos como um grupo de cristãos privilegiados, todos são colocados em igual condição com os outros santos.
            O capítulo que virá na sequência fará uma análise da centralidade de Cristo na epístola aos Filipenses.

2.      Cristo Jesus e a sua centralidade em Filipenses

            Na epístola aos Filipenses Cristo é a vida, o exemplo, objetivo, e a providência dos que Nele crêem. Tudo o que remete a Cristo deve ser o motivo de primordial atenção na vida dos seus servos. É interessante ressaltar que Filipenses é uma das cartas consideradas pelos teólogos, como parte das epístolas paulinas da prisão, juntamente com Colossenses, Filemom e Efésios, cartas que datam provavelmente do princípio da década de 60 d.C.[10]
            Um dos pontos de extrema culminância da centralidade de Jesus nessa epístola é o apelo à imitação de Cristo, ou seja, Cristo é o modelo perfeito e todos os cristão devem olhar para Ele e viver de forma coerente imitando a Cristo em todos os seus procedimentos. O interesse humano é totalmente desconstruído à luz dessa carta, Paulo aponta para necessidade até de sofrer pela causa de Cristo, não apenas de crer, mas participar dos sofrimentos, estar disposto de fato a imitar o seu mestre. Sobre isso:
Ninguém que leia as Cartas de Paulo passará por alto a freqüência das frases em Cristo, em Cristo Jesus, no Senhor. Em Cristo Jesus aparece 48 vezes, em Cristo, 34, e no Senhor, 50. Evidentemente estar em Cristo constituía para Paulo a própria essência do cristianismo.[11]

Isso denota a proximidade que os cristãos devem viver com seu mestre, tão arraigados e unidos, tão intimamente ligados, a ponto de não temer as dificuldades, perseguições e prisões pela causa do seu Senhor. Paulo mesmo diante das suas prisões não perde o ânimo e nem considera que seja uma perda, mas revela que isso serviu de progresso ao Evangelho:
Quero que saibais irmãos, que o que me aconteceu redundou em progresso do Evangelho: minhas prisões se tornaram conhecidas em Cristo por todo o Pretório e por toda parte, e a maioria dos irmãos, encorajados no Senhor pelas minhas prisões, proclamam a Palavra com mais ousadia e temor. Fp 1.12-14

Aqui ele reforça a necessidade do povo de Filipos continuar firmes e não reclama dos acontecimentos que sucederam a ele. O mesmo fala no primeiro capítulo que as suas prisões não minaram o progresso do Evangelho, reforça e fé e o ânimo dos filipenses, e exorta-os para não se preocuparem, com aqueles que, se aproveitando da ocasião da sua prisão estão anunciando a Cristo por motivos partidários. Paulo não manda que o povo impeça a obra desses que assim procedem, antes afirma que mesmo a motivação sendo reprovável, eles estão proclamando a Cristo e isso é motivo de regozijo.[12]
            O termo usado nesse texto para partidarismo é eritheia, Barclay no seu comentário à epístola aos Filipenses diz o seguinte:
Nas origens seu sentido não era de maneira nenhuma pejorativo; significava simplesmente trabalho pelo pagamento ou trabalho assalariado. Mas o homem que só trabalha pelo pagamento tem um motivo muito baixo: desempenha-se só para beneficiar-se, para proveito e lucro próprios e para seu prestígio sobre outros. De modo que o termo chegou a descrever o oportunista, o homem que desempenha um cargo para engrandecer-se a si mesmo. Nesta linha o termo se conecta com a política: significa buscar sufrágios para o cargo; descreve a busca do interesse pessoal e a ambição egoísta; pinta as ambições pessoais e o espírito de competição que tenta o próprio adiantamento sem preocupar-se dos meios a que se rebaixe a fim de chegar ao que se propõe. Nesta situação se encontravam aqueles que pregavam com mais esforço agora que Paulo estava preso; pois sua prisão lhes parecia uma oportunidade enviada do céu para incrementar sua própria influência e seu prestígio e seu partido eclesiástico, diminuindo os de Paulo.[13]

Nesse caso Paulo não está se referindo aos judaizantes, nem aos hereges do seu tempo, se fosse nesse sentido Paulo jamais aprovaria isso. Seria a homens que pregavam a Cristo Jesus corretamente, mas buscavam honras, prestígio e embotavam a influência de Paulo enquanto ele estava aprisionado.
            Paulo descreve sua situação no capítulo primeiro, também o progresso do Evangelho por causa das suas cadeias, fala da guarda do Pretório, sobre isso é importante destacar que a guarda pretoriana era um número considerável de componentes, Barclay sobre isso diz:
O guarda do pretório era o guarda imperial de Roma. Tinha sido instituída por Augusto e compreendia um corpo de dez mil soldados escolhidos. Augusto os tinha mantido dispersos por toda Roma e as aldeias vizinhas. Tibério a concentrou em Roma num edifício especial com um campo fortificado.
Vitélio tinha aumentado seu número a dezesseis mil. Prestavam serviço durante doze anos, que mais tarde aumentaram a dezesseis. No final do período cada um recebia a cidadania romana e uma subvenção equivalente a mais de seiscentos dólares. No final chegaram a ser quase o corpo de guarda privado do imperador e constituíram um grande problema. Estavam concentrados em Roma e em certa época o guarda do pretório se fez nada menos que a instauradora dos imperadores já que o candidato que propunha o guarda era sempre o escolhido. O guarda do pretório impunha pela força sua vontade, se era necessário, sobre o povo.[14]

É notório que a prisão de Paulo abriu espaço para a pregação do Evangelho o núcleo mais seleto e fechado do exército romano. Além de abrir espaço nesse âmbito, também foi um estímulo aos irmãos de Filipos para pregarem o Evangelho com mais vigor e mais vontade.
            Não há dúvidas que a epístola aos Filipenses é altamente cristocêntrica, no capítulo segundo, trata da kenose[15]Em vez de preocupar-se com seus próprios interesses, os crentes deveriam demonstrar o mesmo tipo de humildade e altruísmo que Jesus demonstrara (2.4-5). [...] (ekenosen) Filipenses 2..7. Jesus ‘se reduziu a nada’[...]”[16] se esvaziou tomado à forma de servo, sendo Deus. Vivendo e sofrendo uma morte horrível na cruz, era a entrega da sua glória divina para assumir uma realidade de despojamento. No mesmo hino também vemos o quanto Deus o exaltou “[...] Por isso Deus soberanamente o elevou e lhe conferiu o nome que está acima de todo nome”. Fp. 2. 9-10
            Cristo como centro, deve ser o motivo da vida e morte dos santos. O apóstolo deixa claro que o viver é Cristo e o morrer é lucro, Cristo deve ser engrandecido no nosso corpo, devemos levar uma vida digna do Evangelho de Cristo, ou seja, ter uma coerência com a vida e a doutrina à qual os cristãos são submissos. Também é enfatizada a firmeza espiritual, a união, a lutar juntos e no mesmo espírito pela fé no Evangelho. No que tange a essa luta, o cristão ao deve temer o sofrimento pela causa de Jesus, pela causa do Evangelho, tampouco os adversários e as dificuldades que surgem nesse intento.
            Paulo queria ter certeza que se algo acontecesse a ele, ou ao povo de Filipos, não iria afetar a causa de Cristo. Todos deveriam ter plena consciência da grandeza, da responsabilidade, da importância da obra evangelística, assim também, que não eram apenas facilidades e coisas agradáveis que iriam enfrentar. Essa epístola demonstra fielmente o que importa enfrentar pela causa do Evangelho.
            Era de suma importância que houvesse fidelidade ao evangelho, assim, não poderiam viver de maneira incoerente e, passar a impressão de descrédito às pessoas, ainda não alcançadas, o pessimismo, o medo e a ansiedade deveriam ser combatidos. Essa epístola mostra a Cristo em todas as suas partes, também é portadora de palavras cheias de contentamento, mostrando em (3. 12-14) qual o prêmio que devemos alcançar.

Considerações Finais

            Falar a respeito da centralidade de Cristo é uma responsabilidade grande, também um assunto que precisamos abordar nos nossos estudos teológicos. Em épocas de tanto retrocesso, de tanta pobreza no ensino e tão poucos estudiosos, estudar temas relacionados à pessoa de Cristo, torna-se um assunto pertinente.
            Aqui nesse breve texto, tratamos apenas uma centelha do que vem a ser o tema de Cristo em Filipenses, seria necessária maior investigação, um processo exegético e hermenêutico mais maduro e aprofundado para uma elucidação de maior monta. Contudo, a proposta não foi muito ambiciosa, o que nos propomos como um breve estudo, foi alcançado ao longo dessas poucas linhas.
            Esse estudo tem a pretensão de ser um mote para futuros aprofundamentos o tema, visto que a centralidade cristocêntrica também pode abrir discussão para a compreensão de mais assuntos relacionados à epístola.
REFERÊNCIAS


BARCLAY, William. Philippians. Tradução de Carlos Biagini. Disponível em:
<<http://www.iprichmond.com/filipenses>>. Acessado em 27 de outubro de 2016, 17h.

BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova edição, revista e ampliada. Paulus, 2002.

CHEUNG, Vincent. Comentário Sobre Filipenses. Disponível em: <http://www.monergismo.com/textos/livros/livro_filipenses_cheung.pdf>> Acessado em 27 de outubro de 2016, 16 h.

KAISER, Walter C. Jr. O Plano da Promessa de Deus: teologia bíblica do Antigo e do Novo Testamento. Tradução de Gordon Chown e A. G. Mendes. São Paulo, Vida Nova, 2011.





[1] Mestre em Filosofia pela UFPB, graduada em Licenciatura Plena em Filosofia pela UEPB, cursando Bacharel em Teologia pelo STCNe, professora do STCNe.
[2] KAISER, (2011, p. 318). Grifo nosso.
[3] Ibid p. 318.
[4] Cf. Atos 16.13.
[5] BARCLAY, (p.10)
[6] "Significado de Prosélito: s.m. Antigo. Pessoa que abdicava de suas crenças para adotar a religião judaica. Religião. Indivíduo que se converteu ao judaísmo ou a qualquer outra religião, doutrina, seita etc. Adepto, partidário - pessoa que abraçou uma seita, uma doutrina, um partido etc. (Etm. do grego: prosélytos) "
[7] No comentário da Bíblia de Jerusalém, refere-se a “um espírito pitônico”, assim denominado como lembrança da serpente Píton, do oráculo de Delfos.
[8] KAISER, (2011, p. 319). 
[9] CHEUNG, (2003, p. 10)
[10] KAISER, (2011, p. 303). 
[11] BARCLAY, (p.19)
[12] Manifestação de contentamento, prazer e alegria.
[13]BARCLAY, (p.32)
[14]Ibid. (p.30)
[15] KAISER, (2011, p.319)
[16]Ibid. (2011, p. 319)

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